Era da Sabedoria

Introdução

Sonhos que conseguimos lembrar podem ter um imenso valor. Tive uma vez um daqueles bem fáceis de serem lembrados ao acordar, do tipo que faz a gente abrir os olhos pela manhã sem acreditar que estávamos apenas sonhando. E, naquele caso, a sensação não foi nada boa.

Sonhei que estava em um pequeno evento. Havia chegado a minha vez de oferecer uma palestra. Slide posicionado, falei tudo que estava previsto. Rapidamente havia terminado e pude sentir o que sentiam e pensar o que pensavam todos aqueles que estavam ali diante de meu falatório. Não havia acontecido absolutamente nada! As palavras haviam saído de forma mecânica, num evento mecânico, com participantes que não faziam por mal, mas estavam acostumados demais com o ordinário e não esperavam mais do que isso. Ao final, nada havia mudado neles e nem em mim.

Meu legado, naquele instante, era o de ser um orador que enchia ouvidos e esvaziava corações. Apesar disso, a missão foi considerada cumprida. Ninguém reclamou nem percebeu a farsa. Este era o esperado não apenas de mim, mas de todos os palestrantes que me precederam e seguiram. Os participantes saíram da mesma forma que entraram no evento, sem um entendimento da vida e pouco conscientes do papel que desempenham no jogo da evolução.

Quando acordei deste sonho/pesadelo, imediatamente perguntei a mim mesmo se nas poucas vezes em que havia tido a oportunidade de falar em público havia falhado dessa forma, desperdiçando o precioso tempo das pessoas e enchido ouvidos com a mesma canção que embala um sono coletivo e uma forma de fazer tudo sem alegria, sem magia, sem tesão, sem consciência, sem significado, apenas cumprindo o cronograma.

Há algum tempo venho me perguntando qual o meu maior medo. Talvez por isso tenha sonhado com este cenário terrível. Joseph Campbell, um mitólogo e escritor estadunidense disse uma vez: “Na caverna que você tem medo de entrar é onde se encontra o tesouro que você procura”. Sinto que o meu maior medo é justamente passar a vida sendo um papagaio do som da multidão, sem acrescentar nada novo e sem deixar, ao menos, um grito de esperança que possa ressoar por algum tempo.

Tudo bem ser normal e reproduzir a sociedade se acreditasse que o mundo estivesse indo bem, mas acho que não está. Por isso, assusta-me tanto a ideia de ser normal. Buscamos a ordem e o progresso através do cumprimento das leis humanas, mas não percebemos o quanto estas leis recém nascidas são inexatas e passageiras quando comparadas às Leis ancestrais que precederam a nossa vida e sempre deram ordem ao Universo.

Nascemos em plena viagem do avião da vida, sem conhecer a origem ou o destino. Chegamos neste mundo através de um milagre que nem mesmo a boa ciência é capaz de explicar. Não temos respostas para as perguntas mais fundamentais e básicas da vida e, ainda assim, caminhamos por aí cheios de convicções emprestadas, omitindo de nós mesmos o fato de que quase nada sabemos.

Pessoas normais sempre existirão. Quem dera, um dia, num mundo ético e fiel às Leis do Amor sejamos todos normais. Seria ótimo ser considerado normal num contexto assim. Porém, a normalidade hoje precisa ser observada com cuidado. Sobretudo a própria preocupação em ser normal que, no fundo, é apenas um disfarce para o medo de não pertencer, de não ser aceito no grupo, de ficar sozinho, de não ser amado.

E porque tanto medo de ficar sozinho? Porque é justamente isso que deveríamos fazer! Esta é a caverna assustadora que parece assombrar o inconsciente coletivo. É também ali que está o tesouro tão procurado. Quem não encontra a paz dentro, não pode encontrar a paz por fora. Este olhar para dentro, para a vida interior, é a chave para consertar o que de fato nos aprisiona.

E porque viajar para dentro de nós mesmos é assustador? Primeiro porque não temos os instrumentos para fazê-lo bem. Junto com o conhecimento científico acumulado, sobretudo no século XX, veio uma onda de repulsa às sabedorias ancestrais por considerá-las meras explicações chulas para descrever o mundo. Mitos, astrologia, numerologia, tarot, geometria sagrada, todas estas ferramentas capazes de descrever a jornada interior com riqueza de detalhes agora são confundidas com passatempos criados por seres primitivos com pouco entendimento sobre o real funcionamento do mundo. Portanto, hoje, sabedorias assim não são mais consideradas dignas de serem levadas a sério porque da mesma forma que um filho jovem acredita precocemente saber mais que seu pai, também o homem, no seu processo histórico, pode julgar o que veio antes como menos exato e correto quando comparado com suas conquistas mais recentes, no caso, o conhecimento científico. Mero engano.

Dizem que quando tudo que temos para utilizar como ferramenta é um martelo, todo problema parecerá um prego. Hoje, temos estudos maravilhosos e super bem fundamentados que explicam cientificamente um pouco sobre como funciona o mundo à nossa volta. Graças a isso, sabemos, por exemplo, como erguer um prédio sem exagerar na fundação e, ao mesmo tempo, garantir que tudo ficará de pé. Estamos, aos poucos, expandindo nosso domínio sobre o mundo material, ainda que a mãe natureza insista em nos lembrar cada vez com mais frequência o quanto somos meros espectadores passivos das suas próprias transformações.

Um nível razoável de conhecimento científico que explica um pouco o mundo a nossa volta. Este é o martelo que temos. Portanto, é comum que o foco esteja fora. O martelo serve para isso. Investimos tempo demais buscando fora. Às vezes, até surge um Carl Jung, mas o que temos na prática são milhares e milhares de profissionais da saúde ocupando-se em receitar a droga da moda para fazer dormir, trabalhar, comer menos, comer mais...

Nosso foco foi pra fora, por isso, estamos tão perdidos. A vida interior, que depende de momentos de isolamento sadios, com poucos estímulos para existir, foi deixada de lado. Os mitos ancestrais foram esquecidos porque não se parecem com um prego para o nosso recém criado martelinho científico entrar em ação e, se não é prego, não interessa! Afinal, nosso novo martelo nos dá uma sensação de que chegamos lá, de que estamos fazendo nosso trabalho como seres humanos e evoluindo de alguma forma. Apesar do nosso martelo hoje ser a ciência, nem sempre foi assim. Não faz muito tempo, o martelo era a religião.

O martelo não é necessariamente ruim, muito pelo contrário, pode ser um passo importante. Mas tanto a religião quanto a ciência nunca chegarão à sua plena realização enquanto estivermos na Era do Conhecimento pois, dentro dessa perspectiva, ao se promoverem, excluem-se mutuamente. Isso não faz sentido na era que virá a seguir, a Era da Sabedoria, onde descobriremos que um sentimento honesto de busca pela verdade que guia um bom cientista é o mesmo sentimento que guia um bom sacerdote na sua disciplina. Se ambos forem além do superficial acabarão se encontrando no mesmo lugar, na verdade.

Para restabelecer a ordem e criarmos os alicerces para uma nova Era de Sabedoria (porque sinto que outras já existiram) o caminho não é o de destruir tudo que nos levou para fora, mas sim, compensar um pouco todo esse conhecimento externo direcionando-o para dentro. Nesse sentido, as crianças são a nossa esperança porque representam a pureza. Estão mais próximas da fonte da vida pois acabaram de chegar, sua memória ainda guarda a sabedoria da integração, uma conexão com tudo e com todos. Da mesma forma, os mais velhos que se tornam anciões sábios também são nossa esperança, são símbolos do cumprimento da jornada da vida e de que é possível partir em paz.

Mas assim como existe dentro da gente mecanismos inexplicáveis que nos distraem da busca abafando boas perguntas e seduzindo para a inércia evolutiva, por fora, também parece existir o mesmo mecanismo materializado no mundo através de estruturas que apresentam-se como as grandes salvadoras e sem as quais não poderíamos viver e, ao mesmo tempo, mais tiram do que dão. Entre elas, temos a escola.

A escola comum está tão focada no lado de fora que há quem realmente acredite que seja possível preparar as crianças para a vida apenas como o ensino de matemática, geografia, idiomas, história, educação física, biologia, química e por aí vai. Partimos do princípio de que se ensinarmos tudo aquilo que um indivíduo precisa para passar no vestibular, fazer um curso superior e ter um emprego, casar, pagar as contas, construir uma reputação, adquirir bens materiais, ser reconhecido, então ele estará bem e será automaticamente bem ajustado e feliz.

Acontece que, na prática, a ordem é justamente a oposta: é quando caminhamos no sentido de solucionar nossos conflitos internos que vamos tornando-nos melhor por fora. Somente quando crescemos por dentro em maturidade, honestidade e valor é que o mundo ao nosso redor vai ficando mais próspero e mais alegre, adquire a forma perfeita que deve ter para nosso pleno desenvolvimento.

Quando falo sobre a Era da Sabedoria e os esquemas que foram criados a partir desta ideia, observo que o tema gera uma reflexão e causa reações que vão desde narizes torcidos à aplausos empolgados. Em ambos os casos, isso parece bem diferente do pesadelo que tive onde o que se sentia era nada. Talvez, de fato, estes esquemas possam ajudar a refletir e encontrar mais prazer e significado na jornada interna sobre a qual sei muito pouco ainda, mas este pouquinho que sei é o melhor que tenho para entregar. Minha esperança é que seja suficiente.


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