Era da Sabedoria

Síntese

Vivemos em tempos caóticos onde a informação é difundida por todos os lados na velocidade da luz. Basta um dispositivo conectado à internet nas mãos para ter acesso a mais conteúdo em um único dia do que poderíamos consumir se dedicássemos toda uma vida inteira de estudo. Para organizar esta quantidade enorme de informações criaram-se áreas do conhecimento onde cada pesquisador pode ficar dentro do seu próprio quadrado indo fundo em ramificações específicas e especializadas do saber e assim poder estudar cada vez mais e mais a respeito de menos e menos.

A esta abundância de informações e de conhecedores de distintas áreas em seus respectivos quadrados chamo de Era do Conhecimento. Temos um livro para cada assunto, uma especialização para cada profissão. Logo cedo, começamos a nos perguntar o que a criança será. Um médico? Um advogado? Um engenheiro? O que ela vai ser quando crescer? E uma ansiedade vai tomando conta dos pais na medida que sentem de forma consciente ou não a pressão da sociedade para que um dia possam dar um rótulo àquela criança e encher a boca para dizer que seu filho é isso ou aquilo.

Mas não chegamos a este mundo com uma profissão. Temos todas as possibilidades e nossa curiosidade não vem com limites, rótulos ou julgamentos. Nascemos com um fascínio pelo desconhecido, sobre nós mesmos, sobre nossa origem e nosso destino. Mas, do ponto de vista da Era do Conhecimento, não somos nada se não tivermos uma especialização e, por isso, temos que dedicar energia nos anos seguintes da infância e juventude tentando responder o que seremos no lugar de caminhar no sentido de descobrir o que somos.

É provável que se Leonardo da Vinci estivesse vivo hoje teria muita dificuldade em convencer alguém a comprar um de seus quadros. Afinal, como confiar em alguém que até pinta mas, ao mesmo tempo, faz 'bicos' em assuntos de engenharia, matemática, música, escrita, astronomia, astrologia, botânica, anatomia, escultura, arquitetura e ainda resolve inventar umas máquinas por aí? "Esse cara não sabe o que quer da vida! Deve pensar que é Deus para tentar fazer tudo isso... Vai acabar enlouquecendo de tanto estudar e não sendo bom em nada..." É bem possível que estes fossem os comentários caso Da Vinci vivesse hoje apenas como um anônimo entre nós. A Era do Conhecimento não admite polímatas, os que fazem muitas coisas e as fazem muito bem.

Qual a motivação capaz de fazer do 'Leonardo' um 'Da Vinci' senão uma visão integradora da vida que aproxima conhecimentos no lugar de distanciá-los? A boa notícia é que talvez Da Vinci não seja tão singular assim no seu potencial. A má notícia é que, quando observo o efeito de uma educação conteudista típica da Era do Conhecimento, vejo esta inteligência sem limites da criança ser podada em doses homeopáticas por um ultrapassado sistema escolar que limita a imaginação e o poder de realização do indivíduo a uma determinada profissão para ganhar dinheiro.

Este costume de dividir tudo em setores cada vez mais específicos não parou apenas nos saberes e assuntos da mente. Ele parece ter contaminado também o coração humano a tal ponto que começamos a ver diferença entre a morte de uma criança no Oriente Médio e outra na Europa, como se o sofrimento de ambas as mães não fosse igualmente imenso, algo para além do que é possível expressar.

Assistimos às notícias e tentamos fazer das nossas casas fortalezas onde as desgraças do mundo não possam entrar. No fundo, sabemos que a única forma de manter esta postura é evitando o florescimento de um sentimento de Amor Universal, um laço capaz de toda uma espécie que passa pela mesma experiência metafísica no cosmos, ainda que ela seja sentida, interpretada e descrita de forma diferente por um grande número de distintas crenças.

Mesmo com os desafios trazidos pela Era do Conhecimento e seu modus operandis de colocar tudo em caixas separadas a vida encontrará uma forma de abrir e combinar o conteúdo de cada uma delas. As diversas especializações criadas deixarão de ser empecilho e tornar-se-ão combustível para a entrada em uma nova Era da Sabedoria na medida que os assuntos forem se encontrando.

Os pedaçinho do homem já começam a dar sinais de que estão voltando para o seu lugar e fugindo de extremismos separatistas. Ciência e religião fazem a sua parte quando falam sobre a interdependência que temos uns dos outros enquanto espécie que habita um mesmo organismo, cada uma a seu jeito. Não surpreendentemente, observamos esta visão integradora capaz de construir pontes no lugar de muros muito mais presente naqueles que foram longe em experiência de vida do que naqueles que escolhem permanecer presos a uma pequena faceta da verdade sem nunca ousar combinar o pouco que sabem com algo mais.

Existe uma cena no filme "Poder Além da Vida" que explica bem a diferença entre uma visão fragmentadora da Era do Conhecimento e outra sintetizadora da Era da Sabedoria. Millman, o jovem e orgulhoso aprendiz, tem um jantar com aquele homem que chama ironicamente de Sócrates, seu maestro e frentista de posto. Na cena, Millman recebe um prato elegantíssimo e o devora rapidamente enquanto observa Sócrates alimentar-se de forma atenta e pacientemente. Millman tenta tirar um sarro falando o que velho Sócrates é cheio de regras, que tem várias frescuras inclusive para comer. A resposta de Sócrates dá é tão profunda que só chega a ser entendida pelo apressado aprendiz no final do filme. Ele explica que a diferença entre eles é que enquanto Millman é praticante de Ginástica Olímpica, ele, Sócrates, é praticante de tudo.

O caminho da Síntese depende de intuição e raciocínio, assim como dizia Platão. Experimentamos hoje, no senso comum, uma energia oposta, a das crenças e das opiniões. Num contexto assim é perfeitamente possível promover uma cultura de medo entre diferentes religiões sem nunca chegar a uma síntese, sem nunca perceber que todas são chamas de uma mesma verdade capaz de se manifestar através de distintos avatares. Ainda que possa existir em cada umas das religiões pessoas incríveis e, ao mesmo tempo, falsos seguidores em todos os níveis hierárquicos, pense o que seria de um verdadeiro encontro entre Jesus e Buda? Ou entre Maomé e Confúcio? O silêncio e um olhar bastaria para transformar aquele momento em um mágico encontro de almas.

A soma de todos os saberes é maior do que a soma das suas partes, por isso, a força de um único sábio é maior do que a de 1 bilhão de conhecedores em seus respectivos assuntos. O estudo na vida deveria ter este mesmo objetivo, o de viver sem carregar lixo e desenvolver um modelo integrador dos saberes onde cada disciplina possa ser combinada para gerar gente capaz de fazer qualquer coisa através da sua síntese e não apenas apertar parafusos através da sua especialização.

A transição da Era do Conhecimento para a Era da Sabedoria nos exige muito mais do que uma profissão, exige um entendimento, uma síntese onde o indivíduo possa ser senhor de si mesmo e não folha em branco jogada ao vento, suscetível a todo tipo de manipulação externa pelos pequenos sopros de verdade que encontrar.


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