Era da Sabedoria

Verdade

A forma caótica como conteúdos são produzidos e disseminadas na Era do Conhecimento abre espaço para a manipulação da verdade. Um número tão grande de informações no lugar de esclarecer e dar sentido acaba contribuindo para fomentar dúvidas e fragmentar opiniões, seja por maldade ou por ingenuidade.

Ingenuidade é quando o conhecimento fica limitado devido a um distanciamento entre dois assuntos, por exemplo, entre a Nutrologia e o Zen. A Nutrologia veio depois do Zen e apoia-se em outras escolas que são validadas no mundo acadêmico como a Química, a Biologia e a Medicina. No entanto, ao fazer isso, apega-se às propriedades físicas dos alimentos e do próprio ser humano simplificando sua existência para poder tratar com maior cientificidade e propriedade de alimentação dentro de um contexto que precisa de limites para poder ser investigado e descrito através de critérios bem definidos.

O Zen, por outro lado, sabe que a forma como reverenciamos o alimento e o quanto estamos presentes enquanto nos alimentamos pode perfeitamente bem transformar algo quimicamente puro e saudável em veneno para o ser humano ou algo impuro e maléfico em bom alimento. Se a Nutrologia tentasse englobar tudo, inclusive a sabedoria Zen, não poderia oferecer certificações profissionais e dar sustentação à uma profissão na Era do Conhecimento, deixaria de ser um caminho de formação acadêmica para tornar-se um caminho de vida. Mas um efeito colateral desta postura que busca através da ciência pura encontrar verdades é justamente o de impedir a si mesma de chegar a uma verdade completa sobre alimentação, um entendimento que inclua, inclusive, a tradição Zen e o reconhecendo do seu valor.

Veja que não há maldade neste caso. O que existe é a boa intenção acadêmica de manter o rigor científico ainda que, para isso, deva excluir critérios considerados mais subjetivos por irem além do que é mensurável, como as variáveis levadas em consideração pelo Zen.

Limitada às propriedades quimicamente mensuráveis a Nutrologia nunca conseguirá unir o prático com o transcendental, coisa que a verdade faz sem se importar se a mente humana irá atingi-la ou não. A Verdade simplesmente é e depende de outro nível de frequência humana para ser alcançada, um nível que vai além do intelectualismo investigativo e abre espaço para uma contemplação que inclua, além do raciocínio, amor e intuição.

Outra forma como nos afastamos da verdade na Era do Conhecimento é por maldade. Neste caso, a confusão é promovida propositalmente para obter algum tipo de benefício que atenda a interesses privados em detrimento do bem comum. Um exemplo clássico disso foram as ações da indústria do tabaco na segunda metade do século XX onde, na impossibilidade de combater argumentos irrefutáveis sobre seus malefícios, adotou uma estratégia de confundir para tentar convencer a fumar.

Em 1979 um documento secreto da indústria do tabaco acabou sendo revelado ao público. Seu propósito era o de orientar uma luta para combater estudos que relacionavam o consumo de cigarro ao desenvolvimento de câncer. Em um dos seus trechos mais reveladores dizia: "A dúvida é o nosso produto, pois é o melhor meio de competir com o 'corpo de fato' que existe na mente do público em geral. É também o meio de estabelecer uma controvérsia."

Felizmente, este acontecimento chamou a atenção de Robert Proctor, um pesquisador na Stanford University, que passou a estudar esta prática tão corrente da Era do Conhecimento onde a ignorância é promovida propositalmente para defender algum tipo de interesse, normalmente econômico. Mais tarde, ele mesmo cunhou um novo termo para descrever este tipo de fenômeno chamado Agnotologia e escreveu o livro "Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância".

Em ambos os casos, por ingenuidade ou maldade, a Era do Conhecimento é um paraíso de informações capazes de confundir e um deserto de verdades capazes de orientar. Apesar disso, existe uma esperança de que o cenário mude. Apenas estamos acostumados demais em olhar para fora para decorar e reproduzir afirmações parciais, facilmente contestáveis, frágeis, que pouco nos servem em momentos de crise.

É nos momentos difíceis que a verdade mostra seu tamanho e os argumentos suas fragilidade. Na prática, cada indivíduo precisa de apenas algumas poucas verdades absolutas para orientar as suas ações e ter parâmetros para avaliar a sua existência. Alguém que seja capaz de fazer 3 afirmações absolutamente inquestionáveis do ponto de vista de si mesmo sobre as quais possua 100% de convicção e onde não exista um pingo sequer de desconfiança do seu próprio coração tem força suficiente para fazer o mundo girar. Quando a Era da Sabedoria chegar junto com ela virá o insight de que não há nada superior à verdade.

* http://www.bbc.com/future/story/20160105-the-man-who-studies-the-spread-of-ignorance


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