Nova Ordem

Ordem Original

No passado, em uma daquelas Eras da Sabedoria que já existiram, a lógica era a seguinte: Terra, Água, Ar e Fogo. E tudo funcionava mais ou menos assim...

1º TERRA (Prosperidade)

Nossa chegada no mundo era um momento crucial. A sobrevivência do corpo físico dependia de um parto perfeito, qualquer surpresa poderia representar a morte do bebê e da própria mãe. Não haviam UTIs, nem médicos como conhecemos hoje e muito menos equipamentos modernos para lidar com prematuros ou portadores de algum tipo de deficiência. Além disso, dependendo da cultura, uma criança que chegasse a nascer e fosse considerada fisicamente imperfeita poderia, inclusive, ser descartada.

Era o momento de maior risco de morte, simplesmente fácil demais de algo dar muito errado. O primeiro ano que se seguia ao parto também não era para os fracos. Os desafios de ordem física/material ainda imperavam. A mortalidade infantil deixava a sua marca por se tratar de um organismo frágil em um ambiente hostil. A vida, já no início, exigia grande resistência por parte daqueles que resolviam dar um passeio por este mundo.

Diante de um contexto assim, é natural considerar a Terra o primeiro elemento. Até porque, para os que sobreviviam a este primeiro momento da vida, sua Prosperidade estava basicamente garantida. Sabiam que a mãe natureza dá em abundância e nossos ancentrais mais antigos tinham sabedoria suficiente para harmonizarem-se com ela e desfrutar dos seus presentes. Daí a ideia de que, uma vez superado o desafio de nascer e completar o primeiro ano de vida a amizade e as pazes com a matéria, a Terra, já estava resolvida, tornando possível imaginar o degrau da Terra em primeiro lugar. A Prosperidade simplesmente estava lá sem a necessidade de vestibular, cursinhos, faculdades, estágios, empregos, empresas, salários, contas, hipotecas, empréstimos, juros... Neste cenário original, ter acesso aos recursos capazes de sustentar o corpo físico ocorria sem complicações. Era outro momento muito diferente dos dias atuais.

Tudo fica de alguma forma registrado em nosso DNA. Quem nunca sentiu saudade de estar em harmonia com a natureza? De estar embalado pelo ritmo de força do Sol e leveza da Lua, sentindo o frescor de uma briza suave e bebendo água pura direto do rio? Esta memória ancestral ainda vive, em algum lugar, dentro de cada um. Fora, porém, tudo mudou.

2º ÁGUA (Felicidade)

Após a Terra, o novo foco na jornada da vida era o desenvolvimento do elemento Água que existe dentro de cada um. Conquistado o degrau da Terra, cabia agora o desenvolvimento de boas relações com a Tribo. Era o momento de aprender a estar junto, brincar com as outras crianças, respeitar e honrar os mais velhos, apoiar os mais novos. Os antigos sabiam que, até para ser feliz, era necessário treinamento, neste caso, treinamento emocional. E tudo era feito de maneira muito natural, até porque, adquirir mestria das emoções depende muito mais de exemplos do que de aulas.

Com a superação do estágio de sobrevivencia relacionado à Terra era a hora de pegar aquela criança com saúde e dá-la a oportunidade de aprender a estar com os demais. Este era o momento de aprender a se relacionar, de honrar a pai e mãe, de saber que faz parte, de pertencer. Pertencer é a necessidade número 1 do coração, algo básico para todo ser.

Era comum a nudes neste momento, não havia a necessidade de guardar a curiosidade do corpo para depois. Crianças de ambos os sexos bricavam juntas nos rios e nas árvores, encardidas e em paz com a Terra, um passo que já ficará para trás. O momento era o de aprender que todos somos um, sem distinção, sem rótulo, apenas com a guiança da beleza sutil do amor, sem mágoas (más águas). Todos deveriam aprender a brincarem juntos num ideal de Fraternidade.

Existe uma beleza oculta neste momento da jornada. Estamos na metade do caminho, Terra e Água já foram, Ar e Fogo vêm a seguir. Esta divisão marca a separação entre o ordinário e o extraordinário. Significa que, daqui para frente, a mestria dos elementos seguintes não eram uma condição básica da vida; era algo reservado apenas àqueles que sentiam o chamado por algo mais e, com o apoio de um mentor, abriam as portas para um mundo novo de sabedorias e conquista da autêntica liberdade.

No início, era preciso aprender a viver bem. Os elementos Terra e Água precediam os demais justamente por isso. A autonomia física/material e as boas relações eram parte do ciclo básico e obrigatório para todos da tribo. Era bonito que fosse assim porque, passar nesta prova da metade do caminho, já significava ser Próspero (Terra) e Feliz (Água) e isso estava ao alcance de todos.

3º AR (Cultura)

Conforme a puberdade ia chegando, o florescer natural da atitude erótica com o sexo oposto marcava o início de uma nova fase onde o contato com o sagrado feminino através da Terra e da Água precisava dar lugar à iniciação ao sagrado masculino através do Ar e do Fogo. Para os meninos, era a hora de serem tirados do conforto e da segurança da mãe e seguirem a vida ao lado dos seus pais. A dor e sensação de abandono pelo afastamento da mãe combinado com a sensação de morte gerada através de rituais marcava o início de uma nova fase onde era preciso desenvolver sabedoria antes que suas ações causassem dano à si mesmo e à tribo.

Imagine alguém com uma inteligência sensível o suficiente para perceber que existe uma mágica ao seu redor. Não há fome, as crianças brincam todas juntas, as relações são saudáveis em todos os níveis, a natureza não pára de nos presentear e segue promovendo a vida em abundância. Existiam raros momentos de instabilidade e conflitos, mas o que perpetuava era a paz, esta homeostase necessária para dar tempo de registrar no DNA humano a mensagem de que podemos confiar, de que as coisas irão bem por si só na medida que soubermos nos integrar à natureza sabendo ouvir e seguir a voz da intuição.

Era natural, que algumas poucas pessoas começassem a se perguntar profundamente: Quem dá ordem a tudo isso? De onde vem tamanha perfeição? Com saúde física e material (Terra) e boas relações (Água), era fácil de perceber que o próximo passo era encontrar alguém mais sábio para descobrir um pouco mais a respeito deste milagre da vida. Nascia a verdadeira relação mestre/aprendiz, um encontro externo que simboliza uma aliança com o que existe de maior dentro de cada um, uma amizade símbolo da decisão de caminhar no sentido de abandonar vícios e desenvolver virtudes.

Este privilégio de receber os ensinamentos de um mestre era precedido pelo direito à Properidade e Felicidade, ou seja, Terra e Água vinham antes. Este nascer na mente filosófica no passo 3, o Ar, significava o fim de uma fome por recursos materiais e necessidade de preenchimento emocional através do reconhecimento externo, afinal, o corpo saudável e o coração em paz já estavam lá graças ao passo anterior da Terra e da Água. Aprender sobre o mistério da vida com um mentor, ser um iniciado, vinha junto com o desejo do aprendiz que mudava de direção libertando-se cada vez mais das necessidades animais e passageiras do corpo para seguir em direção às descobertas que revelariam a vontade eterna de sua alma, tudo sem a miséria por falta de dinheiro ou amor, contexto ideal para que a inteligência posso buscar o céu no lugar de ficar presa à terra.

Estamos na metade da jornada, onde o elemento Terra e Água avançam para encontrar os elementos Ar e o Fogo, o Buscador encontra seu Maestro/Xamã que irá iniciá-lo nas artes da mente, simbolizado pelo Ar. Na primeira fase, Terra e Água, tratava-se do desenvolvimento da Arte de Viver, onde o objetivo era aprender a ser útil e estar em harmonia com a Tribo; deste ponto em diante, uma vez iniciado, era o momento de desenvolver uma nova habilidade para aprender a ser totalmente livre, tinha início o processo de transmissão da Arte de Morrer que começava com o elemento Ar (a mente, o conhecimento, o entendimento) e terminava no elemento Fogo (a espiritualidade, o desapego, o legado).

4º FOGO (Liberdade)

Se a vida é plena, até a morte é bonita. Nenhum sábio morre suplicando pela vida. Ele aceita seu destino e devolve ao universo o que um dia tomou emprestado e nunca foi seu, a mente (Ar) e o corpo (Terra). Abre mão do passageiro e abraça o eterno (Água e Fogo) porque aprendeu a confiar no destino e lança-se feliz de volta aos mesmos braços fraternos por onde chegou.

No início da jornada teve de lidar com os assuntos da Terra, superando o desafio de sobreviver e desenvolver saúde. Logo a seguir, é banhando pela Água das boas relações que provam o seu pertencimento, a sensação de estar em casa com as pessoas certas. Neste contexto e no momento correto, o Ar chega trazendo conhecimentos que alimentam o Fogo interno que um dia o levará da liberdade inicial da criança feliz à liberdade final do sábio ancião.

Sem dúvida, esta ordem original (Terra, Água, Ar e Fogo) é muito mais ética do que a que a ordem temos manifestada hoje e será apresentada a seguir (Água, Ar, Terra e Fogo). Nenhum ser deveria viver na miséria e com medo constante da falta de recursos. Mas toda ação tem a sua reação e, através do nosso livre arbítrio histórico, afastamo-nos deste paraíso ancestral para embarcarmos na sociedade moderna (Água, Ar, Terra e Fogo).

É preciso compreender porque tamanha reverência dos xamãs antigos às sabedorias ancestrais e a sua insistência de colocar o elemento Terra em primeiro lugar. No fundo, sentem saudade e buscam uma forma de reestabelecer uma ordem mais bonita do que a atual. Mas coletivamente já não merecemos mais. Por muito tempo transformamos o mundo como bem entendemos, fizemos da vida um negócio, promovemos um holocausto diário com os animais, desrespeitamos a vontade da Terra e privatizamos o Céu.

A vida não está contra nós, mas se adapta para garantir o mais importante: a evolução da consciência. A mão invisível da vida, infinitamente superior a mãozinha econômica de Adam Smith, faz o seu movimento sempre voltado para o bem maior. Fomos expulsos desse paraíso original porque merecemos. Os recursos materiais tornaram-se um privilégio de poucos e, de alguma forma, é esta a experiência coletiva que precisamos hoje para evoluir.

Apesar do luto e do arrependimento serem importantes, sofremos menos entendendo rapidamente porque isso aconteceu e temos mais chances de sobreviver se aproveitarmos a oportunidade de aprender logo a lição. Assim, quem sabe um dia, reencontraremos o paraíso da mesma forma que o perdemos, através do nosso próprio merecimento.


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